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  • Jorge Vinicio

Schitt’s Creek e a celebração dos relacionamentos Queer


O texto a seguir contém spoilers.


A maior premiação da TV aconteceu dias atrás e uma série ganhou de lavada todos os prêmios das categorias principais de comédia, e com os prêmios técnicos, comemorou 9 estatuetas. Sem muita popularidade no Brasil devido a sua distribuição no pouco conhecido serviço de streaming da Paramount, Schitt’s Creek trouxe em seu último episódio um típico final de novela com direito a casamento e tudo mais. Porém, ser tratava de um casamento gay, e como gay que sou, não poderia deixar de celebrar isso.


A série nos apresentou um de seus protagonistas (me recuso a considerá-lo coadjuvante), David, logo no primeiro episódio. Seguindo estereótipos, poderíamos de cara afirmar que ele é gay, afinal alguém afeminado e tão interessado em moda e design não poderia ser… pansexual. Até onde entendo, pansexualidade significa se atrair por qualquer pessoa, independente de gênero, sexo e genitália. A metáfora com vinhos foi certeira, quando, ao ser questionado se preferia vinho branco ou tinto, David diz que gosta de qualquer vinho, independente do tipo ou rótulo.


A série trata com muita leveza desse assunto quando David se relaciona com Stevie, sua amiga. É o primeiro envolvimento que o personagem tem com alguém, e ao se tratar de uma relação heterossexual, a sociedade questiona se o fato dele ter se relacionado com homens não teria sido então uma fase. A resposta vem sem alarde e sem grandes discussões: não existe essa história de fase. Simples assim.


Ao longo das temporadas, David tem outros encontros “amorosos”. Eis que então surge a primeira proposta de relacionamento fora dos padrões: poliamor. Ele começa a sair com um cara que também está a sair com Stevie, e que acaba por propor que eles se tornem um trisal. Eles não aceitam a proposta, não por serem conservadores ou qualquer coisa assim, mas por terem uma amizade muito bem estabelecida que tornaria as coisas estranhas.

Mas o auge da história vem com o surgimento de Patrick. Devo confessar que fiquei todo bobo com o desenvolver do romance. Como o garoto que sonhava em fazer uma serenata para alguém, fiquei encantado quando Patrick fez isso para o David.


Patrick é esse cara que está descobrindo a própria sexualidade após o fim de um noivado heterossexual. Isso, num cenário mais comum, poderia significar uma resistência por sua parte, mas não é o que acontece. David é quem apresenta certa relutância, uma vez que se envolver emocionalmente nunca foi uma realidade para ele. Aberto a todas as possibilidades da vida queer, ele nunca se viu num romance tradicional, porque isso requer assumir as próprias fragilidades.


O que se segue é o desenvolvimento de um romance dentro dos padrões indo em direção ao casamento. Na minha experiência, já me relacionei com caras que acham que esse tipo de construção não condiz com um relacionamento gay, que isso seria a tentativa de se encaixar numa narrativa heteronormartiva. Mas Schitt’s Creek mostra, com maestria, que não se trata disso.


O relacionamento do casal segue o que se diria uma narrativa tradicional, mas nunca lhes são negadas outras possibilidades. David propõe um relacionamento aberto, permitindo que Patrick vá a um date com outro cara. Eles também consideram a possibilidade de terem sexo com outra pessoa, juntos. E, embora nenhuma dessas coisas aconteça, nunca é uma tentativa de heteronormatizar a relação deles, e nisso está o trunfo. O criador da série, Dan Levy, que também encarna David, é gay assumido, e sua percepção lhe permite criar uma história com todas as camadas e discussões necessárias.


Tendo dispostas as possibilidades de relacionamentos queer, David e Patrick optam por uma narrativa romântica que diz muito mais sobre eles enquanto indivíduos do que sobre papeis pré-estabelecidos. O encerramento da série num casamento não deslegitima a vivência deles enquanto gays e nem propõe uma norma. No fim das contas, é essa liberdade que importa, não é mesmo? Todas as formas de se relacionar são legítimas e devem ser celebradas.

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