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  • Jorge Vinicio

Como Central do Brasil volta à realidade 20 anos depois



Eu tinha cerca de 3 anos de idade quando o filme Central do Brasil foi lançado e àquela época eu não fazia ideia de sua existência. Na verdade, fui finalmente assistir apenas agora, 21 anos depois, porém eu conheço essa narrativa justamente porque eu vivi aquela história, eu e todos aqueles que nasceram antes da virada do século.


Todo aquele retrato construído brilhantemente por Walter Salles não poderia ser mais fidedigno. Eu nasci no Vale do Jequitinhonha, conhecido como a região mais pobre do Brasil (fato que limita muito todo um povo a um passado desamparado). Minha família como um todo vem da agricultura familiar, morando numa comunidade rural onde todo mundo tem algum grau de parentesco.


Naquele lugar, se você o visitasse 20 anos atrás, veria todo o contexto social retratado em Central do Brasil. As pessoas viajavam na carroceria de um caminhão que transportava leite às cinco da manhã. As romarias para Bom Jesus da Lapa (BA) eram o que poderia ser chamado de férias para minha família, mas no fim das contas eram uma súplica para que alguma força divina melhorasse as condições de vida. Meu pai, anos antes de eu nascer, teve de partir para São Paulo, Belo Horizonte… era o único jeito de conseguir algum dinheiro para um dia voltar para sua terra e construir uma casinha. Minha mãe até hoje anda descalça pelo sítio, mesmo já tendo machucado os pés inúmeras vezes, pois cresceu sem ter o que calçar e agora já não mais se acostuma.


Mesmo eu, que sou de uma geração que teve uma vida bem melhor, com uma boa educação, me lembro de comer ovo cru com farinha de mandioca e açúcar quando não tínhamos outra coisa para comer no café da manhã ou no lanche da tarde (felizmente, meus pais sempre arranjaram um jeito para que não faltasse comida na mesa). Lembro-me de como as balas que meu avô dava a nós netos eram o motivo de maior felicidade, e quando não tinha bala, as bananas que ele plantava cumpriam seu papel.


As cenas de Central do Brasil são para mim uma viagem no tempo, eu, como Josué, não tinha noção da vida miserável que o Brasil compartilhava. Era pequeno demais para entender as mazelas deste país.


Hoje, ao assistir ao filme, sinto uma agonia, um medo, porém agora não sou mais criança para simplesmente viver sem entender o que acontece ao meu redor.

O desemprego aumenta a cada dia, assim como as oportunidades de subemprego. Ninguém quer passar fome. Nem mesmo formação acadêmica parece ajudar. As pessoas se tornam mais egoístas, traços de caráter que Dora carregava, mas, assim como ela, ninguém deixa de se importar com o outro por capricho, mas por que a desesperança é forte demais. Cega-nos!


No desespero, as pessoas se voltam para a religião como uma fonte de esperança, exatamente como o governo quer. As romarias eram o que fazia com que as pessoas continuassem na luta, suportassem a dor da miséria. Hoje a religião vai por outro caminho, porque não se trata mais de esperança, não se trata mais da crença de que as coisas podem melhorar. Se trata de garantir que a culpa não caia no governo, de que o sistema perdure, que a vala entre classes sejam buracos nos quais você morrerá na queda se tentar chegar do outro lado.


Dora é uma personagem forte e com muita vitalidade, uma senhora aposentada que ainda trabalha diariamente para complementar a renda, uma vez que a aposentadoria não lhe é suficiente. Reconhece algum possível futuro cenário?


Não teremos mais pessoas para escrever cartas, mas seria absurdo demais pensar que teremos pessoas a escrever mensagens de WhatsApp? Talvez, mas já tem muita gente escrevendo pelos outros com o sistema de Fake News instaurado. E mesmo se tratando de subempregos, não estariam os motoristas de Uber, entregadores do IFood, freelancers tomando o lugar dos que antes escreviam cartas?


A polícia tem aval para matar, principalmente o pobre, o preto, como tinha numa das sequências iniciais de Central do Brasil, e tudo bem, afinal o problema não é o Estado que proporciona fome, é qualquer um que não seja o Estado (homem, branco, heterossexual, cisgênero).


A educação tem de ser proibida de alguma maneira. Naquela época era pela falta de acesso, hoje pela demonização do conhecimento como porta de entrada para o corte de investimentos que então irá gerar novamente — ou diria ainda mais? — falta de acesso.

No fim das contas, a situação é a mesma, mas com uma roupagem nova. A falta de esperança retornou, o que impede que o povo lute. Estamos desacreditados, e tentamos nos agarrar a algo, seja a um governo que não se responsabiliza, afinal tem como plano de governo o desmonte, ou às crenças de que se apontarmos os pecadores (quem os define?), mesmo com uma vida miserável, um deus poderá garantir ao menos um descanso na morte.


Central do Brasil é um filme excelente e muito importante, talvez seja hora de reassistirmos e lembrar de um passado muito presente.

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