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  • Jorge Vinicio

A importância social de Não Vamos Pagar Nada


Não é de hoje que há um embate sobre o que é cultura numa tentativa de segregar gêneros e expressões culturais. Assim como há quem menospreze o funk, há aqueles que menosprezam as comédias brasileiras enquanto cinema. Por mais que o gênero em formato de longa-metragem não me atraia, resolvi ver Não Vamos Pagar Nada, filme dirigido pelo João Fonseca e estrelado pela recorrente em comédias, Samantha Schmütz. E fiquei impressionado com a importância social desse filme.


Não Vamos Pagar Nada conta a história de Antônia, uma dona de casa que acaba por criar saqueamento no supermercado em protesto contra a alta dos preços. Só essa sinopse já dá o tom da narrativa que às vezes até dificulta o humor diante de uma realidade cruel. Todavia, a proposta é bastante pertinente: conscientizar através do riso.


Esse é um filme dito para as massas e ele acerta em cheio considerando a realidade dos brasileiros atualmente. Com mais da metade da população sem trabalho e como milhões passando fome, politizar os produtos culturais consumidos é levar compreensão àqueles que têm pouca instrução por causa de um sistema educacional falho.


Não há uma especificação do período em que a história se passa, mas poderia facilmente ser nos anos noventa ou em 2020. Logo no início quando o empregado do supermercado caça Antônia para fazer o reajuste de preço com sua etiquetadora, vemos o desespero das famílias hoje com o aumento do arroz.


Os personagens também retratam fielmente nossa realidade. As mulheres serem perseguidas como criminosas aponta para o machismo estrutural da sociedade. Temos também o pobre de direita, que por mais faminto esteja, se nega a acreditar que o sistema o oprime. Por outro lado, há o policial negro consciente que tenta levar compreensão e aponta para algo importante dentro da polícia: eles obedecem aos poderosos, e muitas vezes não lhes é permitido concordar ou não com o que fazem. Há ainda o dono do supermercado: um homem branco, rico e que não tem qualquer empatia para com o povo e que muito me lembra um certo presidente que termina entrevista ao ser questionado.


Tudo isso é apresentado ao espectador com um humor comum das comédias brasileiras e de maneira muito clara. O final, embora mascarado de feliz, retrata aspectos sórdidos da política e da justiça no Brasil, e isso é um aspecto importante que tenho visto nas produções nacionais. 3%, seriado da Netflix, também entrega um final político. Infelizmente vivemos uma realidade em que finais felizes são pouco prováveis.


Após esse filme, o que eu me questiono é: esquecerão as pessoas de todas essas críticas à nossa sociedade quando os créditos subirem?


O filme se encontra disponível no TeleCine Play.

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